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Buenos Aires – Argentina

Intervenção

SYLVIA FUREGATTI E HEBERT GOUVEA EM BUENOS AIRES: SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE ARTE PÚBLICA | VISITA AO PROJETO ELOISA CARTONERA | INTERVENÇÃO CUL DE SAC.

1º SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE ARTE PÚBLICA

Buenos Aires sediou, no mês de novembro de 2009, o Primeiro Seminário Internacional de Arte Pública na América Latina organizado pelo GEAP – Grupo de Estudos sobre Arte Pública na América Latina. O projeto, ligado à Universidade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, ocorreu entre os dias 11 e 13 de novembro e reuniu pesquisadores, artistas e estudiosos do tema, de diferentes países latino-americanos (Brasil, Argentina, Peru, Colombia, Uruguai), além de representantes da Europa (Espanha).

A presença maciça dos brasileiros no evento demonstrou o interesse por encontros como esse. Foi possível construir uma vasta troca de idéias e estudos por meio de apresentações dedicadas a casos específicos de Esculturas Públicas, monumentos, intervenções artísticas contemporâneas, projetos governamentais de manutenção e restauro urbano, dentre outras propostas de conceituação desse campo e de curadoria para projetos com características de site specific art; por seus desdobramentos em projetos subvencionados ou leis urbanas de incentivo à inserção de esculturas e projetos artísticos nos espaços urbanos atuais. 

Sylvia Furegatti integrou a mesa da tarde do dia 11 com uma apresentação que trazia um recorte de sua pesquisa acadêmica recente. O trabalho intitula-se: As constituições da Arte no Meio Urbano ao longo do século XX. Arte Pública, Arte Urbana e Intervenções Artísticas no Meio Urbano. Por ora está disponibilizado no resumo impresso e no CD Room do Simpósio.

Esse estudo reflete parte importante de seu atual trabalho de pesquisa voltada para as formas atuais da Arte Extramuros. O foco empregado nesse encontro busca problematizar a confluência existente entre o discurso e as características próprias das formas de ação artística no espaço urbano e aberto contemporâneo. Em linhas gerais, propõe-se ao aprofundamento da discussão sobre as configurações existentes dentre: Arte Pública, Arte Urbana e Intervenções artísticas no meio urbano.

A multiplicidade de abordagens dos cerca de 60 pesquisadores presentes nesse Seminário suscitou um importante debate além de fomentar o nascimento de um grupo dedicado a esse campo de estudo na América Latina.

Notadamente, a abordagem apresentada pelo corpo das pesquisas dos demais representantes sul-americanos deteve-se sobre o século XIX; sobre a formação da imaginária urbana permeada pelo busto-monumento nesse período; sobre a questão da memória e da identidade firmadas pela construção de esculturas públicas e sua relação com o entorno urbano das cidades.

De forma geral, as pesquisas apresentadas pelo grupo de brasileiros projetaram um campo de interesse orientado principalmente para o século XX e XXI. Os trabalhos levantaram elementos constitutivos das atuais formas de Arte Pública e Urbana, além de aspectos de curadoria e projetos elaborados nesse contexto mais recente.

A participação do Grupo Pparalelo nesse evento também foi garantida pela presença de Hebert Gouvea que participou do Seminário como ouvinte. As programações se iniciavam as 9h00 e seguiam ao longo do dia até as 20h00 ocupando diferentes auditórios no centro da cidade de Buenos Aires.

VISITA AO PROJETO ELOISA CARTONERA

Ao longo da semana, entre Seminário e visitas de reconhecimento local os artistas do Pparalelo foram conhecer o Projeto Eloisa Cartonera, situado no Bairro La Boca em Buenos Aires. O projeto ganhou destaque recente no meio artístico brasileiro por sua participação na 27ª Bienal Internacional de São Paulo, edição curada por Lisette Lagnado, intitulada Como viver junto.

Ocupando um prédio simples de esquina nesse movimentado bairro portenho, o grupo de catadores de papelão que constroem livros de modo experimental recebeu os artistas do Grupo Pparalelo apresentando suas novas criações que igualmente derivam de frases poetizadas, imagens pintadas e suportes cotidianos que agora escapam dos livros para tomar a forma de bonecos, cartazes e camisetas. Nessa tarde, discutiu-se um pouco sobre a configuração artística do projeto, de como a proposta reverberou e foi bem incorporada às proposições de Arte Pública praticadas no Brasil, situação que não pareceu abalar a crença na realidade de sobrevivência dos seus representantes, um pouco poetas, um pouco vendedores, um pouco catadores de papelão.

Inseridos no sistema de distribuição das livrarias comerciais da Província, os representantes do projeto, Ricardo Piña e Miriam (Onça), presentes naquela tarde, formulavam sua visão de artistas a partir da poesia mais que da visualidade. Demonstraram orgulhosamente a abrangência conquistada pelo projeto em toda a América Latina enfatizando seu contexto literário e experimental.

Foi possível perceber que o aspecto de inclusão social que alicerça o Projeto projetava-se em seus discursos espontâneos propondo que o sentido ético do grupo, não o estético, foi o vetor primeiro ativado para alcançar o dado artístico desse ateliê de livros feitos em cartão.

Encontrar uma forma de trabalho como resistência à crise econômica e social pela qual passou a Argentina construiu a forma da Cooperativa e possibilitou o encontro com o trabalho da Editora.  Essa consciência do trabalho arregimentou as pessoas que participam do cotidiano de recolha dos papelões, fabricação dos livros, exposição e vendas no Ateliê do Grupo.

Ricardo e Onça desconheciam a autenticação artística visual aplicada ao Grupo em sua passagem pela Bienal Internacional de São Paulo e demais circuito de Galerias de Arte e instituições que por aqui firmavam e também vendiam exemplares desses livros como objetos de arte.
A visita-entrevista tomou cerca de 3 horas e sugeriu, pela postura adotada por esses representantes legítimos do Projeto, que a simplicidade do trabalho desses cartoneros interessa-se, fundamentalmente, pela sublevação conseguida no resultado artístico do trabalho. Contínuo, em pleno funcionamento por anos, o debate com esses representantes levantou a questão desses pesos e medidas presentes na forma da Arte Pública atual frente às leituras mais amplas.



 

INTERVENÇÃO ARTÍSTICA CUL DE SAC

A passagem por Buenos Aires também contou com uma intervenção urbana de Sylvia Furegatti. A intervenção pelas ruas da cidade foi uma continuidade do Projeto de intervenções artísticas Cul de Sac, proposta coletiva paralela à Bienal de Veneza/2009, curada pelo belga Lino Polegatto do qual participaram Sylvia e Franco Angeloni, dentre outros artistas.

No sábado, dia 14, já encerrado o Seminário, Sylvia e Hebert efetuaram desenhos efêmeros em 7 pontos urbanos monumentais e ou históricos da cidade de Buenos Aires: proximidades do Obelisco, MALBA, Museu de Belas Artes, Hard Rock Café, Rampa de acesso para a Faculdade de Direito, Ponte da Mulher em Porto Madero, etc.

A proposta original do Projeto Cul de Sac, em sua versão européia, pressupunha a inscrição de variados desenhos de artistas por um grupo de colaboradores locais que se organizaram para intervir sobre o pavimento das ruas e passagens de Veneza. Para a Argentina, manteve-se esse contexto colaborativo. Sylvia realizou o desenho de seu projeto Part Participation e Hebert replicou o trabalho de Franco Angeloni – Antarctica Frozen Communists Party.

Esse dia de trabalho teve encontros muito interessantes com outros artistas e estudantes de Design argentinos que também dedicaram seu final de semana para a prática de intervenções artísticas. Na praça em frente ao Museu de Belas Artes pudemos debater as idéias de cada projeto em execução com um grupo local que propunha a construção fictícia de equipamentos de filmagem para controle do espaço público.

O espaço urbano de Buenos Aires se mostrou bastante receptivo às intervenções politizadas que empregam o sticker e o grafitte de teor quase sempre politizado. Além disso, também estampa em seus grandes e freqüentes jardins e parques públicos coleções de esculturas públicas e monumentos públicos nacionalistas que mostram uma cidade-capital bastante instigante para os investigadores desse campo artístico.

Part Participation, executado com giz azul ou amarelo sobre as calçadas, bancos e passagens repetia a metade superior da Bandeira Brasileira pelo espaço urbano argentino. A escolha dos lugares para sua aplicação, relativamente abertos, limpos e de fluxo bastante grande de pessoas, pode chamar a atenção daqueles que por ali passaram no curto prazo de sua duração.